Virtudes

Uma das coisas mais importante sobre viver a vida é, segundo Sêneca, aprender como vivê-la dia após dia; e mesmo assim, ao final dela, confessaremos ainda não saber, porém com um pouco mais de compreensão em relação aos que não se importam em aprender. 

Muitos dos homens mais importantes, tendo abandonado todos os empecilhos e renunciado às riquezas, aos cargos públicos e desejos, buscaram uma única coisa até a extrema velhice: saber viver. Muitos deles, todavia, deixaram a vida confessando ainda não saber [tudo], porém sabendo mais do que outros.

O saber viver estoico é compreender que tudo o que se enfrenta na vida é uma oportunidade de responder com virtude, mesmo em situações ruins, dolorosas, assustadoras, ou mesmo diante da morte. Para o estoico, viver virtuosamente, é a coisa mais importante a ser conquistada nesta vida, como afirma Cícero:

O homem que tem virtude não precisa de nada para viver bem.

A que virtude eles se referem? Não se trata de qual, mas sim de quais. São elas as quatro virtudes cardeais: SABEDORIA, TEMPERANÇA, CORAGEM E JUSTIÇA.

Um estoico acredita que não controla o mundo ao seu redor, mas deve aprender a como reagir ao que não pode controlar, devendo sempre responder com as quatro virtudes.

Mas o que quer dizer cada uma delas? Vejamos:

SABEDORIA

Sabedoria é a razão da filosofia e esta o amor pela sabedoria. Os estoicos a definem como o conhecimento das coisas boas e más, ou do que não é bom nem mau. Por ela temos conhecimento e prudência. Sêneca diz que “aqueles que estão disponíveis para a sabedoria, só estes vivem”. Pela sabedoria encontramos resposta sobre o que devemos escolher, tomamos os cuidados necessários em medir as consequências dos nossos pensamentos e atitudes e compreendemos o que é realmente importa ou não, tanto para nós como indivíduos, como para uma vida em sociedade. É com sabedoria que tiramos as lições de nossas leituras e das experiências vividas e as aplicamos em nossa jornada diária. Sem ela lançamos longe lições importantes e agimos impulsiva e irracionalmente.

TEMPERANÇA

A temperança é o conhecimento de que a abundância vem de ter o que é essencial. Os estoicos costumavam usar a temperança de forma intercambiável com autocontrole, não apenas em sua relação com os bens materiais, mas para uma vida em harmonia e boa disciplina sempre, seja no prazer ou na dor, na admiração ou no desprezo, no fracasso ou no triunfo. A temperança os resguardava contra os extremos, de não confiarem na fugacidade do prazer e de não se permitirem sucumbir aos sofrimentos.

CORAGEM

É a virtude pela qual o estoico encara as lutas com bravura e honra, mesmo que não possa garantir vencer. Como se percebe na afirmação de Sêneca, quando condenado à morte por Nero:

Nero pode me matar, mas não pode me prejudicar.

Com coragem, o estoico enfrenta as verdadeiras lutas da vida, as quais não ocorrem fora, mas dentro de si mesmo, para melhorar a si e ajudar os outros. Com coragem, ele enfrenta o infortúnio e a morte; arrisca-se pelo bem do próximo e mantem seus princípios. A coragem é a força que lhe faz falar o que pensa e insistir na verdade.

JUSTIÇA

Justiça tem a ver com pensar, falar e agir visando o bem comum. O que é justo para um, não pode ser injusto para o outro. Para o estoico, a justiça não era uma matéria só para magistrados, advogados e juri, mas era compreendida de modo muito mais amplo de nossas interações e deveres para com nossos semelhantes. A justiça consiste no princípio que constitui o vínculo da sociedade humana. Ela nutri a convivência sem que se promova o mau uns aos outros, possibilitando uma sociabilidade comum com boa fé, firmeza de caráter e verdade. Cícero nos ajuda a compreendermos a justiça, considerando o que é agir injustamente:

Na maioria das vezes os homens são induzidos a ferir os outros para obter o que cobiçam.

A injustiça é qualquer coisa que cause dano ou prejudique outro ser, mesmo que esse dano seja sofrido por um só. O entendimento desse princípio faz todo sentido para quem se compreende como parte de um todo interdependente. Sobre isso, Marco Aurélio diz:

O que fere a colmeia fere a abelha.

Nesse sentido, a injustiça que cometo contra o meu próximo ou a sociedade, cometo contra mim mesmo. Pela virtude da justiça, consideramos a importância de sermos justos conosco, de “buscarmos o melhor em nós mesmos” o que significa, segundo Epicteto, “cuidar ativamente do bem-estar de outros seres humanos”. Portanto, viver segundo a justiça é honrar a igualdade da balança, quanto ao que é justo para mim e para o outro.

Temos muito a aprender no curso desta vida tão imprevisível. Haveremos de lidar com muitas coisas sobre as quais não teremos controle. Mas, apesar de soar esmagador e incapacitante, precisamos desvendar os nossos olhos para a realidade, permitindo que isso nos liberte de muitas ideias fantasiosas que nos impedem de enxergar os paradoxos da realidade compreendidos pelos estoicos: se nascemos, morreremos; ora choramos, ora rimos; ora temos saúde, ora podemos ter de enfrentar enfermidades; mesmo que estivermos vivendo momentos pacíficos, não estamos insetos de enfrentar conflitos, mas o inverso também é verdade.

Sendo assim, não importa o que aconteça, devemos sempre tentar responder de modo sábio, temperante, corajoso e justo a todas as coisas. É isso que está a nosso alcance. Quanto ao que não controlamos, isso cuidará de si mesmo com ou sem o nosso consentimento.

Vamos nos manter fortes! Vamos nos manter bem!

Noia Estoica

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